É bem mais profunda (e esparsa) a definição da solidão. Seria muito fácil lidar com ela se fosse apenas o sentimento de estar sozinho, na ausência de outrem que lhe faça companhia. Em mundo de tanta gente, se é só estando acompanhado. Porque a solidão globalizada (em bits e bytes de comunicação ilimitada) é estado de espírito e ausência de entendimento.
Há quem fique sozinho somente a portas fechadas. Há quem escancare a janela e continua só, mesmo com o fluxo corrente de falatórios e ofertas. Há quem sinta a solidão amarga e arrastada por gosto, súplica de sofrimento que edifica. Mas há quem derrame rios de arrependimento por não ter deixado frestas e invadido, no quarto escuro, a sombra só de outro alguém.
Aos céticos, farsantes desconfiados, lhe agradam a solidão que isola. Esgueiram-se por territórios vizinhos e, miúdos, espiam de longe as aventuras de quem enfrenta mar de sortes em nau desvairada de paixões. A esses loucos que ignoram a solidão rainha, o escape é tão difuso e confuso quanto o mapa que escolheram seguir. E caso encalhe o barco e lhe rasguem a vela, capotam sozinhos na areia ou afogam em dor que suspira o estômago e corrói de canto a lembrança, incômoda.
É bem mais confusa (e ordinária) a definição de solidão. Nasce no seu oposto, a companhia, a quem busca com desprezo. Ofusca felicidade com máscara de boa resolução, mas compadece e esmorece no silêncio agudo. É bem mais sofrível (e infame) a definição de solidão. Porque não se compreende completamente seu significado até que seu gosto invada alma adentro. Porque o dicionário é inerte. E porque definições são poeira de falares perto das rochas de sentires.
